Adhara Luz e a sua missão de "amazonizar o mundo"

Adhara Luz vem de uma família de desbravadores e apaixonados pela Amazônia, sua terra natal, mais precisamente Alter do Chão, no interior do Pará.

Ela é um exemplo de como é possível transformar paixão em profissão e motivada pela vontade de escrever a sua própria história ela criou a AMZ, uma produtora de experiências que tem como missão “ligar Avatares e conectar pessoas, natureza, culturas, valores e essências”.

Com muita sensibilidade, amor e foco Adhara e a AMZ tocam a vida de muitas pessoas, das maneiras mais diversas possíveis. Confira na entrevista abaixo sua história e conheça melhor a AMZ:

Conte um pouco sobre a sua família. Qual a influência dela no seu trabalho e na sua vida?

Minha tataravó era índia Borari e ela se casou com o homem que fez os primeiros mapas hidroviários dessa região, então a minha ligação com o rio e a navegação já vem de família.

Meus pais se conheceram na faculdade bem novos, ela tinha 19 anos e ele 23 anos. Meu pai é médico e depois de uma viagem que ele fez para a Amazônia eles decidiram se mudar para Alter do Chão, minha mãe foi a primeira pessoa de fora a morar aqui.

Eu não nasci em Alter, mas me considero paraense porque voltei para cá quando tinha um mês de vida, é por isso que eu tenho essa coisa de “ter um pé em cada canto”: um pé aqui, um pé no Rio de Janeiro e outro em São Paulo e isso justifica muito o que é a AMZ hoje em dia.

Como é a sua relação com o Projeto Saúde e Alegria?

Eu cresci aqui praticamente junto com o Projeto Saúde e Alegria, porque meus pais são os fundadores da ONG, e isso é maravilhoso. Eu cresci viajando de barco, indo para as comunidades, dormindo em rede, participando das dinâmicas e participando de todo esse lado social de ONG.

Como foi o início da sua trajetória profissional?

Eu fiquei até os doze anos em Alter e depois fui para o Rio de Janeiro estudar, depois fui para São Paulo, voltei para o Rio e com 18 anos fui conhecer o mundo. Ia viajar por três meses e acabei ficando fora por um ano e meio, sem um centavo no bolso e tive que trabalhar em diversos empregos em bares e restaurantes para conseguir juntar dinheiro e continuar viajando.

Eu sempre fui ligada à arte, com desenho, colagem, dança. Voltei da viagem e comecei cursar design gráfico na faculdade e Escola Nacional de Circo, comecei trabalhar como artista circense e em festivais de música eletrônica como o Universo Paralelo. Depois de um tempo comecei me envolver em produção de eventos, fiz um trabalho com meu pai em uma exposição chamada Amazônia Brasil que ele foi o criador do projeto e levamos essa exposição para Nova Iorque e Paris.

Depois que eu me formei eu voltei para Alter do Chão, comecei trabalhar aos 18 anos, e comecei trabalhar no Saúde e Alegria, depois fui passar um tempo no exterior de novo e depois em 2010 me mudei para São Paulo, porque eu queria trabalhar e eu achava que São Paulo ia me dar uma base profissional legal.

Como a AMZ surgiu na sua vida?

Foi durante umas férias em Caraíva e todos os meus amigos falavam que queriam conhecer a Amazônia, então eu marquei uma data para que no próximo carnaval eles fossem conhecer e comecei produzir a viagem. Foram trinta pessoas nessa primeira viagem de barco, todo mundo amou e no final eu percebi que isso era um trabalho.

Depois de trabalhar em alguns projetos em São Paulo eu percebi que queria ter a minha própria história. Todos meus amigos me indicavam quando alguém queria ir para a Amazônia, então eu decidi criar a AMZ.

Para mim era uma coisa que fazia muito sentido, porque desde pequena eu queria que os amigos fossem conhecer a minha realidade, para mim era uma honra, uma felicidade!

Eu via como as pessoas voltavam dessas viagens e isso foi me dando mais força, a diferença que causava nas pessoas.

Fui aperfeiçoando muita coisa durante o caminho até agora, mas o clima entre amigos e a informalidade continua a mesma do início.

Como foi o início da AMZ e o processo de estruturização da empresa?

Foi muito orgânico, eu nunca fiz um business plan na vida, eu tinha uma certeza que eu não queria escritório, não queria um formato engessado, não queria nada que eu ficasse escrava do meu próprio negócio. Então eu decidi que nós iríamos ter só computadores, para podermos ter liberdade e eu fui construindo minha rede de trabalho, porque eu não queria uma equipe fixa, eu queria construir uma sociedade e ser leve, que a AMZ fosse uma extensão do que eu fosse.

Isso funcionou muito bem, primeiro fui me movimentando muito e criando minha rede de contatos e fornecedores, criando viagens. Algumas coisas funcionavam, outras não, o que eu achava que ia dar muito certo algumas vezes não dava e ia tirando tudo que não funcionava e melhorando.

Hoje em dia eu tenho parceria com o Dani, que é meu marido, com a Marlena e tenho uma fiel rede de pessoas que entendem o que é a AMZ.

“Todo mundo é parceiro, somos uma rede.”

Uma das vivências na Amazônia criada pela AMZ

Quais são as frentes da AMZ? Como você define esse projeto tão rico para pessoas que estão tendo contato com a ele pela primeira vez?

Eu fiz uma reflexão de como apresentar a AMZ e dividi em três áreas:

Where: o “onde”, com foco na Amazônia, mas isso não é limitante. Se houver uma ideia ou vontade de realizar viagens para outras regiões nós iremos fazer. Temos o turismo, que dentro dele tem viagens de hospedagem e visita à comunidades ribeirinhas, viagem de barco (que oferece vários tipos de barcos) e a hospedagem em Alter do Chão.

Também oferecemos viagens para empresas e produção local, um exemplo é a vivência na Amazônia Peruana que eu fiz para a Bienal de Arte de São Paulo, que era para a inspiração de um artista. Também produzi uma vivência assim para o museu Etnográfico de Berlim, então cada caso é um caso.

Tudo é personalizado, cada viagem é um roteiro. Um caso de produção local foi o projeto que eu fiz para a Osklen, em 2015, na tribo Ashaninka , no Acre, produzi um vídeo sobre o processo de co-criação da coleção que foi inspirado nessa tribo. Também produzi para a Natura, em 2016, uma viagem para jornalistas conhecerem a comunidade em Belém.

Wear: queremos investir esse ano na marca de roupas da AMZ, que já existe em um formato pequeno e trabalhando com costureiras e artesãos locais. Como eu viajo muito e gosto de design, vou mapeando e fazendo uma curadoria do que eu acho legal. Também faço parcerias, como a que eu tenho com um artesão que faz sapatos de látex que mora no interior do Acre, nesse caso desenhamos juntos algumas peças e as produzimos.

Aweare: todo o processo de trabalho da AMZ é justo, responsável ambientalmente (o máximo que conseguimos) e inclusivo. Além disso temos o Fundo Social, onde de 1% a 3% do lucro vai para pequenos projetos locais que acreditamos ou realizamos nossos próprios.

E para finalizar: qual é o seu recado para os leitores?

Nós precisamos da água, da natureza, nós vemos na pele essa co-dependência. Na nossa vida na cidade nós achamos que tudo é um produto, mas quando você vê a origem das coisas você vê que elas são vivas, são livres, então você vai entendendo a natureza das coisas e a nossa. Os recursos não são infinitos, deveriam ser tratados de maneira responsável.

Você nunca iria machucar um irmão, então quando você vê uma árvore como um irmão você pensa duas vezes antes de fazer alguma coisa.

Temos que entender essa co-dependência, entender que existem sim povos que vivem em harmonia com a natureza e reaprender isso tudo, aprender a viver em harmonia com a natureza e se sentir integrado com isso tudo.

Fotos: Guilherme Castoldi

AMZ Projects
AMZ Projects

Somos ponte. Ponte entre o água e o ser, entre o urbano e a floresta, entre pessoas. Criamos experiências que conectam.

Para seguir, por favor inscreva-se ou entre