A horta foi pro telhado

Pense em quantas lajes e telhados desocupados existem em uma cidade. Agora, imagine se cada um deles pudesse abrigar uma horta, deixando os espaços mais verdes e as pessoas mais saudáveis? Esse é o sonho do Pé de Feijão, um negócio social que pretende levar mais saúde e bem-estar para as grandes cidades. Para isso, eles implementam hortas urbanas e realizam atividades educacionais com foco em alimentação.

A ideia da iniciativa surgiu quando Cyrille Bellier fazia uma especialização sobre negócios sociais e pensou na possibilidade de criar um projeto com hortas comunitárias, cada vez mais comuns no mundo. Ao lado dos amigos Patricia Byington, Isis Oliveira, Jean-Raphaël Traub e Luisa Haddad, Cyrille amadureceu o plano e decidiu criar algo que dialogasse com os problemas de nutrição dos brasileiros – estima-se que apenas 25% da população de São Paulo consome a quantidade de frutas e hortaliças recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Assim, o Pé de Feijão foi lançado como um negócio social que combina agricultura urbana e educação alimentar. O primeiro projeto, uma horta comunitária em um telhado do Capão Redondo (região sudoeste da cidade de São Paulo), foi viabilizado graças a uma campanha de financiamento coletivo. O espaço escolhido para ele, uma laje de 80m², faz parte da Fábrica de Criatividade, um prédio de 3 andares que abriga um centro de inovação e oferece diversas aulas a preços acessíveis.

“Queremos que a horta funcione como uma plataforma de aprendizado para as mudanças de hábitos alimentares”

Patricia Byington

A horta foi montada em novembro de 2015 com a ajuda de arquitetos, biólogos e nutricionistas. O desenho em mandala dos canteiros possibilita uma boa circulação das pessoas, e em breve ganhará bancos, deixando o local mais aconchegante para quem quiser descansar em meio aos vegetais.

O projeto já rende legumes e verduras frescos para a população, mas sua função vai além de fornecer hortaliças. “A horta funciona como uma plataforma de aprendizado para as mudanças de hábitos”, afirma Patricia Byington. “Acreditamos que participar da horta pode acelerar esse processo de mudança alimentares nas pessoas pois elas criam uma conexão com os alimentos, têm sua curiosidade aguçada”, diz.

Crianças em dia de colheita

A professora Sandra Maia de Abril é uma das moradoras do Capão que já se beneficia da relação com a horta. “Como moro perto, passo lá todas as manhãs para molhar as plantas, ver como tudo está e dar uma relaxada”, conta. Antes, Sandra já havia tentado montar uma horta em seu quintal, mas seu cachorro não cooperou. Agora, ela descobriu na laje da Fábrica de Criatividade um novo passatempo. “Eu já comia legumes e verduras de vez em quando, mas agora estou muito mais animada. Já colhi jiló, quiabo, abóbora, alface e descobri que a couve que plantamos é muito mais gostosa que a comprada na feira”, diz.

Além de fornecer alimentos e explicações sobre o funcionamento da horta, o projeto realiza também workshops que tratam de temas relacionados à educação alimentar, como os valores nutricionais dos alimentos, dicas de economia doméstica, receitas nutritivas e sazonais e aulas de biologia e cuidado com as plantas.

Sandra cuida da horta todos os dias

Com o sucesso da primeira horta comunitária, a ideia do Pé de Feijão é expandir o projeto para outras regiões da cidade. Para isso, o negócio social investe em um modelo de subsídio cruzado, no qual cria hortas e realiza workshops em empresas para então utilizar o capital para financiar as hortas comunitárias. Mas a multiplicação dos canteiros não dependerá apenas do Pé de Feijão. “Tenho tanto orgulho do nosso trabalho que convidei algumas professoras para conhecer a horta na semana que vem”, conta Sandra. "Meu plano é conseguir fazer algo semelhante na nossa escola”.