Pessoas e espaços

Um grupo de crianças ocupa um parquinho numa praça da Vila Madalena. Elas brincam no balanço, no “pneu-pula-pula”, na gangorra. Há algumas semanas esta praça estava completamente abandonada. Mendigos dormiam onde hoje as crianças brincam. O lugar era escuro e com mato por todo lado. Ao fundo, uma quadrinha de esportes estava entregue às folhas e à destruição, com o piso rompido por raízes.

As crianças só puderam voltar a brincar por lá quando os adultos resolveram romper algumas barreiras de comunicação para conversar sobre o que deveria ser feito daquela praça. Com a intermediação do Acupuntura Urbana, projeto que revitaliza praças e espaços públicos, o local conseguiu juntar dinheiro de empresas e moradores locais, sentou para discutir as necessidades e colocou os quatro jovens que participam do Acupuntura – as arquitetas Renata e Andrea, o sociólogo Thiago e a designer Inês – para desenvolver o projeto considerado mais próximo do ideal para o local.

“A intervenção é desenhada pela comunidade. O que a gente traz é o passo a passo de como chegar nesse projeto”

“A intervenção é desenhada pela comunidade. O que a gente traz é o passo a passo de como chegar nesse projeto. Eles falam o que eles querem de várias maneiras. Por exemplo, pegamos essa praça, fazemos uma maquete de como ela era, aí eles vão falando: ‘quero parquinho aqui’, ‘uma quadra ali’ e por aí vai”, diz Renata, 26 anos. “Dividimos várias bases de maquetes em grupos e depois eles elegem a melhor ideia de cada um. São várias crianças, cada uma com uma ideia de parquinho, então quando fazem o projeto, votam e decidem juntos o que vai ser feito. É legal porque as expectativas ficam alinhadas”.

Cada comunidade acha sua estratégia de cuidar do espaço. “A gente faz um acompanhamento depois, mas a idéia é de que cada comunidade se aproprie”, explica Renata. “Esse ano nos relacionamos muito com as sub-prefeituras. A gente faz um projeto baseado na maquete e depois do mutirão de 2 dias apresentamos a comunidade à sub-prefeitura e eles começam a se relacionar diretamente”.

O projeto começou em 2011, em uma pesquisa científica na faculdade de arquitetura do Mackenzie. Entre 2011 e 2012 o projeto foi se consolidando: “No começo nos encontrávamos uma vez por semana, era mais uma roda de conversa do que ações propriamente ditas. No final de 2012, me demiti da loteadora onde eu trabalhava para empreender. O projeto piloto do Acupuntura foi o Projeto Coruja, que fizemos por meio de crowdfunding, durante 2013 todo”.

Renata Strengerowski, Co-Fundadora do Acupuntura Urbana

A escolha do local tem várias estratégias, com alguns pré-requisitos. É importante que o entorno seja de moradores e que o lugar seja acessível a pedestres. “O approach é bem cara de pau”, se diverte Renata. “Batemos nas portas ou vemos famílias deitadas no banco, puxamos assunto, perguntamos se alguém faz algum trabalho na região, quem são as pessoas importantes para conhecer, quem são os moradores antigos e por aí vai”.

Os projetos de revitalização costumam durar umas duas semanas, mas esse tempo depende do mapeamento feito pelo time do Acupuntura. “Oferecemos um mapeamento afetivo e urbanístico, produzimos um material, fazemos uma pesquisa mais aprofundada, on-line e in loco, para entender como representar as intervenções da melhor maneira. Assim a gente consegue entender o que devemos fazer para impulsionar a ação, buscando escolas, associação de moradores”.

Praça na Vila Madalena revitalizada pelo projeto.

As ações do Acupuntura Urbana fizeram Renata notar a necessidade de mobilização nos dias de hoje. “É lindo ver as mulheres mais ricas dos prédios da Vila Madalena se mobilizando para fazer as coisas acontecerem ao lado de comunidades mais simples na região. Ver as pessoas conhecendo os vizinhos é demais. É uma coisa que não tem mais hoje em dia”. Todas as comunidades têm características particulares, mas seja ela pobre ou rica, algo deve ser transformado. “No final das contas todos são pessoas e querem as mesmas coisas, o que muda é a estratégia para conseguir isso”.

Renata, sentada no banco da praça recém reformada pelo Acupuntura, explica que hoje as pessoas fazem exercícios no espaço. Diz que a quadra recebeu o investimento da prefeitura para ser arrumada e que até uma senhorinha que tinha artrite se curou cuidando da praça. “Ela criou o termo praça-terapia”, conta a arquiteta.

Equipe do Acupuntura Urbana durante um dos projetos de revitalização.

Escutar a comunidade é apenas o primeiro passo. Muitas vezes as prefeituras tratam o espaço público de maneira impessoal, o que gera conseqüências como o vandalismo. “As pessoas criticam os vândalos até você ir no lugar e conversar com eles para saber que ali eles queriam uma trave e não uma balança. Se você perguntar e conversar, ninguém vai quebrar nada. É uma relação de ganha-ganha. Isso é o que mais me motiva. Não dá mais para colocar as coisas goela abaixo”.

Conheça mais do Acupuntura Urbana visitando o site do projeto: acupunturaurbana.com.br

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1 Comment

Que trabalho maravilhoso. Fico cada dia mais feliz em ver como o Brasil e seus brasileiros conseguem lidar com os problemas, superando e colocando, literalmente, a mão na massa para mudar a realidade atual. Parabéns Acupuntura Urbana, pessoas e espaços! :)