Lugar de política é (também) na escola

“Jovens não gostam de política”. A frase é dita por muitos adultos, mas exemplos recentes como as ocupações de escolas por alunos secundaristas provam o contrário, dialogando com a ideia de uma educação para o século 21 – que não só ensina os conteúdos curriculares mas também trata de temas associados à vida dos jovens.

“Política não se reduz a partidos e ao que acontece em Brasília. Ela envolve também direitos humanos, respeito a questões de gênero, diversidade étnica e religiosa, por exemplo. Política é como tomamos as decisões ligadas ao nosso bairro e até mesmo nossa escola”, diz Mariana Vilella, uma das fundadoras da iniciativa Pé na Escola.

A proposta do negócio social é levar para colégios particulares e públicos soluções customizadas para uma educação política criativa, feita de conteúdos e práticas que pretendem estimular a solução de conflitos, o respeito pela diversidade, o diálogo e a colaboração. “Não queremos apenas dar aulas”, diz Mariana. “Realizamos atividades participativas, na qual os alunos têm voz a nós moderamos as discussões”.

O Pé na Escola foi criado em 2013 por 4 jovens formados em Direito. “Depois de termos contato com projetos relacionados à educação e com o empreendedorismo social na faculdade, pensamos que poderíamos contribuir com a formação das crianças e adolescentes em direitos humanos, levando para os espaços educacionais temáticas relacionadas ao Direito e política”, diz Mariana.

Mas qual é a necessidade de uma educação política? “Por meio dela, os jovens desenvolvem habilidades de argumentação crítica e entendem que uma discussão política não é briga. Também trabalhamos a empatia e o respeito à diversidade, colocando os alunos em posições diferentes das que normalmente ocupariam. Por fim, estimulamos a resolução de conflitos, que auxilia o jovem a lidar com questões do dia-a-dia”.

“Que educação é necessária para construirmos a política que queremos? Para construirmos pontes ao invés de muros?”

Pé na Escola

Dentre as ferramentas pedagógicas usadas pela iniciativa para abordar a política na sala de aula estão jogos, simulações de audiências judiciais, parlamentares e executivas, por exemplo. No jogo “Criando um País”, crianças e adolescentes com entre 11 e 15 anos são convidadas para pensar com total liberdade em como seria uma nova nação, desenvolvendo desde sua bandeira até suas leis e estrutura política. Após cada grupo expor suas ideias e acontecer um debate, os alunos aprendem sobre o processo de construção da Constituição de 1988, e da necessidade desse tipo de documento para uma democracia funcionar.

Outro exemplo de atividade foi um curso customizado a pedido de uma escola sobre a Reforma Política. Em um primeiro momento, nas aulas de História, os alunos discutiram por meio de jogos algumas das propostas da reforma, como o financiamento das campanhas, o percentual de mulheres em cargos políticos e a idade mínima para candidatar-se. Depois, todos os estudantes do Ensino Médio participaram de um debate. “Na discussão eles acabaram entrando na questão do grêmio estudantil da escola e suas funções. Depois, soubemos que a reunião seguinte do grêmio bombou”, conta Mariana.

O Pé na Escola facilita este tipo de atividade. Mas Mariana afirma que qualquer professor pode trabalhar política na sala de aula. “A principal dica é não ter medo de correr riscos. Ao dar a palavra para o aluno, é claro que podem surgir conflitos. Mas vemos que os jovens tratam política de uma forma mais respeitosa e criativa que os adultos quando têm a moderação adequada”, diz a empreendedora.

“O caminho para uma educação do futuro não é tirar a voz do professor. E dar mais voz para os alunos e promover o compartilhamento do conhecimento”.